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II Curta Velho Oeste: Rescaldo

 

Um rescaldo do que rolou no II Curta Velho Oeste, o cinema como uma poderosa ferramenta para forjar uma identidade cultural na região oeste do estado de São Paulo.
Foto:Divulgação

II Curta Velho Oeste: Rescaldo

Durante muito tempo eu fiz o caminho entre interior e o centro, quando estava na capital eu era o cara do interior e quando no interior, eu era o cara da capital, contudo eu sempre me localizava nas periferias e na geometria tem um lance curioso, a circunferência, uma linha curva, fechada, cujas extremidades são equidistantes de um ponto fixo, o centro. Nesta representação sempre imaginei a periferia na qual eu morava, distante do centro, enquanto eu crescia sempre me falavam que o centro é o melhor, principalmente quando mudei para o interior paulista, a máxima sempre ouvida era “Aqui tem nada, têm que busca’ na capital”, mas a meu ver sempre teve e ainda tem, ainda mais sendo o interior todos os municípios não integrantes das áreas metropolitanas das capitais brasileiras.

Não só o interior paulista, mas todos os interiores têm sua riqueza socioeconômica e sociocultural, tem sua voz, e parte dessa voz foi ouvida no Festival Curta Velho Oeste, o qual movido pela força do cinema vinda dos cantos, formando uma ponte que liga realizadores, produtores e a crítica dos interiores brasileiros e suas visões de mundo ocorreu entre 24 e 28 de outubro em Assis-SP.

O Festival e suas mostras proporcionaram um diálogo entre diferentes formas de sentir, experimentar e pensar o mundo e também diferentes formas de execução cinematográfica, impulsionando o recente movimento de interiorização do cinema Brasileiro.

Ilustração: Monique Brandão | Divulgação

Com mais de 400 filmes inscritos, a curadoria selecionou o melhor dos curtas dos interiores do Brasil, todos os filmes exibidos foram excelentes, houve um equilíbrio entre sensibilidade, técnica e temas, em cada Mostra os filmes dialogam entre si, nada estava ao acaso, não há um destoando, tudo pareceu seguir seu fio condutor até ao fim de cada projeção, onde sempre havia uma troca de experiências e análises sobre as produções assistidas, e neste momento podemos perceber os diferentes portugueses, compreendendo a pluralidade da língua, um charme a mais para o festival que busca demonstrar como cada canto é um mundo, diferenciando, mas unindo em um movimento dialético expandindo nossos horizontes, por isso é tão necessário ter essa possibilidade de ver cinema nacional exibido em tela grande e ver diferentes formas de um jeito de falar. (Falei um pouco sobre isso no Texto "Por Favor, Não Fale Brasileiro Aqui").

Essa realização da Oeste Cinema, em parceria com o Polo Audiovisual do Velho Oeste e a Oeste Cooperativa Audiovisual, não só aproximou, mas mostrou uma diversa gama de estilos e muitos diretores, dos filmes exibidos tivemos os mais diversos temas tratados, como baixa visão, aborto e depressão pós-parto, além de migração, agronegócio e ocupação territorial, tradições, amores e política também permearam as projeções. Veja a lista dos filme no Letterboxd.

Os filmes agraciados com o prêmio você pode conferir aqui: Link.

Foto:Divulgação


Neste texto destaco os filmes que me chamaram a atenção:


  • Sebastião Leme – filme com direção de Rodrigo Grota e traz depoimentos apaixonados sobre o artista e inventor, na década de cinquenta, da câmera fotográfica em 360°, o interessante nesse documentário é como ele monta de forma ágil a trajetória de Leme, conseguindo montar a imagem dele para quem o conhece ou não, um registro histórico necessário;

  • Carcinização – filme com direção de Denis Souza aborda de forma psicodélica aquele ponto da vida no qual temos de encarar as mudanças de nossas trajetórias ou quem somos, divertido e bem animado em alguns momentos me lembrou a série The Midnight Gospel, mas muito mais criativo e cativante;

  • Nem o Mar Tem Tanta Água – filme com direção de Mayara Valentim me ganhou na fotografia, belíssima, mas foi o ciclismo aparecer eu embarquei nele de fé. Entre as curvas do rio e a imensidão do mar o filme narra uma trajetória intensa e sensível, visualmente encantadora;

  • Morro do Cemitério - filme com direção de Rodrigo R. Meireles e com a atuação visceral de Wallace Fagner nos apresenta uma trama que embaraça ficção e realidade tratando sobre luto e melancolia com o peso do RAP para intensificar e não ofuscar os sentimentos;

  • Ainda Restarão Robôs nas Ruas do Interior Profundo - filme com direção Guilherme Xavier Ribeiro constrói uma trama calcada no real, um realismo sem pretensões machadianas, mas claramente se aproxima de elementos da obra de Machado de Assis. Um realismo cru, o qual não abre mão da fantasia, no caso aqui, o sci-fi. O ponto forte desse filme se dá na construção de um cotidiano vivo, sensível e bruto na representação visual daquilo que muitas vezes não lembramos: Zona Rural também é periferia. Com uma misancene construída a partir da câmera acompanhando de perto o protagonista a rodagem inteira, para montar um cenário de urgência culminando na sequência final onde ao mesclar a energia da trilha sonora com a cavalgada numa motociata, nos entrega uma catarse sincera e pura, claro, isso é, só para quem tem coração e não um caroço de abacate no peito.


Foto:Divulgação


Dessa forma, assim como o Jacu é uma ave semeadora, o festival semeou em Assis e no seu público, ao longo de seus cinco dias de puro cinema, uma vontade de produzir e consumir audiovisual, encerrando com um sentimento, uma necessidade quase adicta de quero mais, espero conseguir acompanhar todas as suas edições futuras, pois um festival prestigiando o cinema brasileiro numa cidade onde não chega cinema brasileiro é importantíssimo, imprescindível. 


Geralmente quem tá na periferia não tem voz ou, na maioria das vezes, o centro fala por eles, na abertura do evento Guilherme Xavier lamentou e colocou esse ponto, a representatividade do interior por vezes se dá pela capital e não por quem tá no interior, o festival Curta Velho Oeste conseguiu com maestria romper com isso, unindo os interiores e seus cantos, através das sessões e cada visão de mundo exibido, os cantos se aproximam e isso me fez lembrar uma cena da geometria, um lance curioso, a circunferência, uma linha curva, fechada, cujas extremidades são equidistantes de um ponto fixo, o centro; Nesta representação sempre imaginei a periferia na qual eu morava, distante do centro, maior. O interior são todos os municípios não integrantes das áreas metropolitanas nas capitais brasileiras, o interior é periferia e a periferia é sempre maior que o centro e sua voz deve ser ouvida, projetada por ela mesma.


Para mais informações, acesse www.curtavelhooeste.com.br.

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Então, da parte que me cabe nesse latifúndio, isso é tudo pessoal, foi uma experiência gratificante estar presente nesse festival emocionante e emancipatório, pois o Cinema é assim, todos os sentimentos num corpo fechado, no vácuo de um sala escura, num espaço sem fim de possibilidades...

Até mais, mantenha-se à esquerda e hidrate-se!
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Que tal um ver uns filmes? 

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