O Agente Secreto - Crônica Cine-Carnavalesca
“Posso ver o meu sangue?”
Sinopse: Partindo de uma aversão pessoal ao Carnaval, Chuck revisita a folia como experiência íntima e fenômeno político a partir de O Agente Secreto e um encontro casual. Entre cerveja e crítica social, refletimos sobre o festejo como espaço de resistência.
O Agente Secreto - Crônica Cine-Carnavalesca1
Desde miúdo eu não gosto de Carnaval. A festa quebrava minha rotina de criança atípica; nada daquilo que eu gostava de ver na TV [filmes] era exibido durante o período. Contudo, conforme eu crescia fui tomando entendimento da importância e do valor da festividade [mas continuo não gostando]. Muita gente, pouca roupa. Suor, cerveja e xixi exalam da cidade. Mas claro, Carnaval não é de todo mal, foi num carnaval que contra todas as probabilidades eu revi minha amiga Hully Polo, que não via a exatos 10 anos. Não fosse a folia, talvez nunca teríamos nos abraçado, e o que teríamos seriam apenas memórias de carnavais passados.
E falando em Carnavais passados…
Uma coisa das quais me chamaram a atenção na recente parceria entre o ator Wagner Moura (1976), de O Homem do Futuro (2011), e o diretor Kleber Mendonça Filho (1968), de Bacurau (2019), é que O Agente Secreto (2025), além de passar durante a ditadura [num período cheio de pirraça], se passa também no Carnaval. Em 1977, Marcelo foge de seu passado, mudando-se para Recife com a intenção de recomeçar no exílio. Marcelo, sob o pseudônimo de Armando [ou seria o contrário?], chega à capital pernambucana em plena semana carnavalesca.
Durante a rodagem vemos pequenos espasmos de alegria que percorrem a festa que, pela UNESCO, é considerada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. No filme, o Carnaval não aparece como mera ambientação folclórica ou representação de exotismos. Ele funciona como dispositivo dramático e político [e pela primeira vez eu olhei pro Carnaval com outros olhos].
O longa vem sendo amplamente celebrado no circuito internacional de festivais e premiações [coisas distintas entre si que tratarei em outro texto]. Apostando numa combinação de referências históricas e simbólicas, Mendonça utiliza o espaço urbano e suas tensões para explorar a construção da memória e da identidade em um regime autoritário, com a violência institucional do governo do Ditador Ernesto Geisel (1974-1979) escancarando, como diz o poeta, “a maldade de gente boa”.
No Brasil contemporâneo, o Carnaval é um fenômeno social multifacetado: desfiles apoteóticos de escolas de samba2, blocos de rua3 espontâneos e/ou organizados, trios elétricos4, além de frevo5, maracatu6 e manifestações regionais que refletem a diversidade cultural brasileira. Introduzido pelos colonizadores, tornou-se sobretudo uma festa de rua que antecede a chatice da Quaresma7. Ao longo dos séculos, como num movimento antropofágico de nossos modernistas, foi profundamente transformado pela vasta aglutinação de culturas, destacando-se a contribuição afro-indígena brasileira.
Já o filme opera transpondo para a ficção aspectos da história recente do Brasil, articulando entretenimento e crítica sociopolítica, o filme dá continuidade ao cinema autoral de Kleber Mendonça Filho que, assim como o Carnaval, funciona tanto como espetáculo festivo quanto como espaço de afirmação identitária, onde rituais, música e dança articula narrativas sobre raça, classe e memória coletiva. São fenômenos complexos e diversos, sintetizam parte essencial da experiência cultural brasileira. Mas, sobretudo, Carnaval é pulsão de vida.
As cidades tornam-se cada vez mais violentas e agressivas, com uma arquitetura que oprime, cada vez menos verde, menos frutífera. Brutalista. Aparelho repressor do Estado (Althusser, 1970). Kleber, em seu filme, sobrepõe duas forças: o ruído permanente do Estado que age “secretamente” em cada indivíduo, deixando todos em estado de alerta, e a suspensão simbólica das hierarquias e violências durante a festa.
Acessamos o filme por múltiplos pontos de vista, narrando as ações do protagonista enquanto circulamos por uma cidade tomada por fantasias e alegria comunitária. No entanto, quando a festa sai de cena, essa energia popular não se dissolve; acentua a atmosfera de ameaça. Dentro da diegese, a estória apresentada é uma leitura contemporânea através de arquivos de eventos históricos passados, demarcada [sem sutileza] por um smartphone gigante em tela. Esse elemento legitima o andaço do ataque da Perna Cabeluda, que, em meio ao ambiente carnavalesco e ao clima de vigilância política, introduz o registro do insólito e do grotesco como extensão de um medo social real.
O fantástico, aproveitasse do clima burlesco para irromper no cotidiano sem explicação causal clara. O terror não depende de efeitos espetaculares, mas da lógica interna do medo e da sugestão. Mendonça já experimentou isso em Vinil Verde (2004), trabalhando o horror doméstico a partir de uma estrutura minimalista: uma regra materna quebrada pela criança que conduz à mutilação progressiva da figura de poder.
A sequência da Perna Cabeluda, não é mera inserção folclórica e nem simples homenagem ao imaginário popular recifense difundido entre as décadas de 1970 e 1980. A cabeluda reativa uma linha autoral desenvolvida desde os primeiros trabalhos: o uso do horror como lente crítica para observar estruturas de poder, controle e repressão. O fantástico não rompe a realidade; revela-a em outra forma. A Perna Cabeluda, no melhor estilo parabólico bíblico, é metáfora da violência policial. A perna é fruto da incompetência policial em desovar um corpo e encobrir sua violência, ao passo no qual, toda violência policial posterior é direcionado a ela.
Para além do filme, quando observamos nosso cotidiano percebemos que passamos o ano inteiro cumprindo metas em trabalhos mal remunerados, em escalas que nos forçam a viver mais fora de casa produzindo algo que não retorna para nós do que em casa, em algo produtivo de cunho pessoal e/ou comunitário. Porém é no Carnaval que se alteram símbolos, estruturas e superestruturas, evidenciando seus desgastes.
Tensionam-se contradições e a vida pulsa.
Carnaval é pulsão de vida.
E, em O Agente Secreto, o Carnaval não é retratado como espetáculo turístico ou simples pano de fundo no cenário. Mendonça opera-o como metáfora ambivalente: simultaneamente espaço de libertação simbólica e território de intensificação do risco. A festa não suspende o conflito, o expõe com maior nitidez.
O Carnaval nos faz ver pequenas fissuras no realismo capitalista (Fisher, 2020). Sentimos que a vida passa sem realização e muitos sequer veem alternativas. Entretanto, é no Carnaval que isso pode ser suspenso e vestimo-nos de algo mais divertido do que somos. Travestimo-nos daquilo que sonhamos. Pequenos movimentos de afirmação da vida.
E graças a Kleber Mendonça Filho entendi que Carnaval tem sim, muita gente e pouca roupa. Suor, cerveja e xixi exalando das cidades. Entretanto o Carnaval não é de todo mal, é pulsão de vida.
» Assista ao filme: O Agente Secreto;
» Assista a filmografia de Kleber Mendonça Filho ;
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA/LEITURA ADICIONAL (Clique para ser direcionado!):
» Leia o livro: O Agente Secreto: Um Roteiro de Kleber Mendonça Filho;
» Ouça no volume máximo: 183º episódio do Podcast 451 MHz: Samba e negociação.
» Leia o livro: FISHER, Mark. Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que O Fim do Capitalismo. Tradução de Rodrigo Gonsalves, Jorge Adeodato e Maikel da Silveira. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
» Leia o Ensaio: Por favor, Não Fale Brasileiro Aqui! sobre Bacurau.
» Leia o Ensaio: ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos do Estado (1970). Trad. Reinaldo Pedreira Cerqueira da Silva. Arquivo Marxista na Internet, 2018.
13-18/02/2026
Escolas de samba são agremiações carnavalescas surgidas no Rio de Janeiro nos anos 1920, organizadas como associações comunitárias dedicadas a desfiles competitivos, articulando música e cultura popular, além de exercerem papel social em suas comunidades.
Blocos de rua são agremiações carnavalescas que desfilam gratuitamente pelas vias públicas durante o Carnaval. Reúnem foliões fantasiados de todas as idades variando de pequenos cortejos até mega passeatas.
O trio elétrico é um veículo adaptado com sistema de som de alta potência, iluminação e palco, destinado a apresentações musicais em movimento, sobretudo no Carnaval de rua e em micaretas. Criado em Salvador em 1950 por Dodô e Osmar.
Frevo é manifestação musical e coreográfica surgida no final do século XIX em Pernambuco. Caracteriza-se por compasso binário e andamento acelerado, com dança individual marcada por movimentos ágeis de pernas e uso de pequenos guarda-chuvas coloridos.
Maracatu é expressão cultural de matriz africana surgida no século XVIII em Pernambuco, que combina música percussiva, dança e cortejo, com presença marcante no Carnaval.
Quaresma é o período de quarentena que se inicia após a Quarta-feira de Cinzas, praticado por católicos e outras comunidades cristãs à penitência e à preparação espiritual para a Páscoa.
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