Batman vs Superman: Há Dez Anos Estamos Sendo Injustos com Ele?
Save Martha!
Sinopse: O tempo não torna um filme melhor, mas muda a forma como olhamos para ele, por isso, uma década depois, Chuck revisita BvS, do “visionário” diretor Zack Snyder que entre falhas e ambições maiores ainda, o que resta nas ruínas pode dizer mais sobre nós do que sobre o filme.
Batman vs Superman: Há Dez Anos Estamos Sendo Injustos com Ele?
— A sabedoria se constrói no tempo. Como um acúmulo de experiências variando entre erros e acertos, desenvolvemos a capacidade de revisitar certezas e questioná-las. Ignore o sinônimo de inteligência, sabedoria é um exercício contínuo de interpretação do mundo e, mais importante, de si mesmo. Talvez seja justamente isso que nos falte quando criticamos certas obras e talhamos em tábula rasa uma convicção que mais parece papagaiada. Não é?
Volte no tempo comigo que eu explico.
São 3.653 dias me separando de mim; ou seja, eu hoje, sou completamente diferente do meu eu que assistiu Batman Vs Superman: A origem da Justiça (BvS, 2016), dirigido por Zack Snyder (1966), de Sucker Punch - Mundo Surreal (2011). Na época, eu havia gostado, o que levou meu amigo Ary Sandoval a me chamar de louco, ironicamente, algum tempo depois, de fato tive um contratempo mental. Enfim, outra estória.
Carregando o peso de um julgamento arbitrário, BvS foi um fracasso crítico e estabeleceu-se como símbolo de que a visão artística não deve ser sobreposta aos interesses dos acionistas de um estúdio operando na ânsia de capitalizar. A pressa foi inimiga da perfeição, transformando um filme em algo que ele não era e nem foi.
Entretanto, 87.672 horas depois, surge uma pergunta incômoda: BvS, fomos justos com ele?
Talvez o principal problema comece justamente em seu filme anterior, Homem de Aço (2013), também dirigido por Zack Snyder, com história e produção de Christopher Nolan, de Memento, e roteiro de David S. Goyer, de Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D. (1998), e Chris Terrio, de Argo (2012). Estes artistas propõem uma abordagem diferente da que geralmente vemos sobre o Último Filho de Krypton, onde não há um super-homem, mas a busca por uma identidade. O protagonista está entendendo sua condição de exilado, órfão e seu próprio eu. Clark Kent, interpretado por Henry Cavill, de Guerra Sem Regras (2011), sai do ponto A ao ponto B, desenvolvendo seu arco narrativo e um tanto quanto introspectivo, em uma história sóbria e não tão brilhante, mas competente. Após críticas mistas e boa bilheteria, a Warner Bros., proprietária da DC Comics, percebeu que poderia surfar na mesma onda da concorrente Marvel Studios/The Walt Disney Company, pois tinha nas mãos infinitas terras para a base de um universo compartilhado, que já havia explorado anteriormente nos quadrinhos.
Portanto, o raciocínio lógico foi abortar a sequência de Homem de Aço e começar a tecer o filme Liga da Justiça, que seria lançado em 2021, 1820 dias depois de BvS e 1832 dias antes da escritura deste texto, por isso, antes, é preciso construir uma ponte até lá. Essa ponte é BvS, o final do filme anterior, com a destruição massiva em Metrópolis, é usado como pretexto para promover um debate interno e externo a partir de uma segunda pergunta: E se o mundo reagisse ao Superman como uma ameaça?
Há 5.260.320 minutos os carros foram colocados à frente dos bois, apesar disso ainda acho que “essa ousadia” [da perspectiva de alguns fãs mais ortodoxos] é um ponto muito interessante, mesmo que o conflito ideológico entre dois símbolos, presente na HQ The Dark Knight Returns (1986), de Frank Miller (1957), inspiração para esse evento seja ignorado, o ponto principal está preservado: ali não há heróis.
De um lado, Bruce Wayne, interpretado por Ben Affleck, de Procura-se Amy é o primeiro a olhar o Homem de Aço como ameaça, o Batman que vemos não é o detetive da convenção é um homem no limite físico e psicológico, questionando toda a sua jornada e projetando seu próprio sentimento de fracasso e desilusão em uma busca por redenção. Não há combate ao crime como nos quadrinhos infantis; há uma brutal punição beirando o descontrole de uma pessoa sem um norte e potencialmente facista.
Do outro lado, o Homem de Aço que conhecemos anteriormente, que havia saído do ponto A ao ponto B num arco narrativo eficiente, regride. Convenhamos, numa sequência, o esperado é que ele fosse do ponto B ao C [ ou qualquer ponto que seja], entretanto Snyder escolhe dar um passo para trás e refigurar os mesmos dramas do filme anterior, de forma muito menos eficiente. Agora, o Super-Homem não é o farol moral esperado, é uma presença pesada, deslocada e passiva. Operando em observar, reagir e hesitar, ainda não existe como símbolo e nem como sujeito: não sabe ser homem nem deidade, incapaz de salvar o mundo e de se posicionar dentro dele. Ele nem tenta.
Temos, então, um herói que age sem medida contra outro que não age o suficiente; um movido pelo excesso de presença, o outro inerte pela ausência. Contudo, na mesma tabula rasa que escreveram as críticas sobre BvS, o roteiro também parece ter sido escrito em mesmo material, apesar de conceitualmente interessante, o filme não sustenta essa carga dramática. Faltam construções, faltam transições; falta foco narrativo ou um ponto de vista que possa ligar e desenvolver essas ideias a algo que o espectador possa sentir, assistir e ler, não apenas ver.
Parte da rejeição violenta que o filme sofreu parece vir justamente dessa recusa dos realizadores em oferecer mais do mesmo e não muito da técnica cinematográfica empregada na adaptação, debaixo de acertos e desacertos, agora, 315.619.200 segundos depois, ainda há algo ali.
Entre as ruínas sempre há algo de pé.
BvS não é um espetáculo colorido, nem uma aventura escapista com eventos sem consequências. É um mundo cínico, “sombrio e realista” em que a esperança não é um ponto de partida, mas uma busca que tenta sustente seu ímpeto épico. Subtramas surgem e desaparecem, motivações são sugeridas sem desenvolvimento. A montagem de David Brenner, de Independence Day (1996), parece mais interessada em criar cenas de ação estilizadas, ora em câmera lenta, ora em velocidade “normal”, e, diga-se, en passant, que a câmera lenta é usada até quando há super-velocidade em jogo. Transformando um possível impacto em repetição sem força: a beleza como de uma pintura romântica tenta esconder imperfeições da fotografia, que escura cria uma atmosfera pé no chão que se distancia da trilha sonora grandiosa (Hans Zimmer & Junkie XL), que, em meio à cacofonia de estrondos e ruídos, busca preencher espaços emocionais deixados pelo texto e o subtexto constantemente tentando convencer o espectador de sua imponência.
O filme precisa operar como: (1) sequência direta de Homem de Aço; (2) introdução de universo compartilhado; (3) alegoria política contemporânea; (4) releitura mitológica dos heróis. E ele não dá conta. O resultado é um filme que não é apenas um filme; é uma fundação, um atalho, uma promessa de universo, e ao tentar ser tudo isso ao mesmo tempo, acaba não sendo plenamente nada.
Ainda assim, dez anos depois, a rejeição maciça parece simplista, não porque o filme seja injustiçado no sentido de ser uma obra-prima incompreendida, não é.
Deste modo, para finalizar, os problemas do filme são reais, estruturais, mas há nele uma tentativa genuína de romper com o lugar-comum do que se convencionou no gênero e nos filmes de modo geral. Uma tentativa imperfeita e, ainda assim, relevante, pois a partir deste filme, pode-se discutir terrorismo, histeria coletiva e imprensa; há elementos de criação do mito, política e a figura do herói, o que o mantém atual.
Dez anos depois de ver BvS, eu não me sinto mais sábio. O acúmulo de experiências entre erros e acertos [mais erros, infelizmente] não me levou a respostas definitivas, mas a uma percepção mais simples: o ponto talvez nunca tenha sido defender ou condenar, e sim reconhecer que o filme falha tentando algo mais arriscado do que a maioria dos filmes de super-herói ousa tentar.
Para mim, ainda é mais fácil revisitar o Snyderverso do que os filmes do MCU, talvez porque algumas obras não se esgotem no momento em que surgem, como certas crônicas, há aquelas que terminam no mesmo dia em que vêm à luz enquanto outras permanecem, para serem lidas de novo, sob outros olhos. No fim, o filme não nos deu os heróis que queríamos, mas a visão de um artista sobre aqueles personagens, dentro do limite imposto pelo estúdio. E por mais imperdoável que isso pareça, não é motivo para injustiça.
Revisite o Snyderverso.
» Assista ao filme: Batman vs Superman: A Origem da Justiça;
» Veja nossa lista do SnyderVerse (DCEU);
EXTRA:
» Ben Affleck foi citado em
» A DC Comics foi citada aqui em
» Zack Snyder foi citado aqui em
» Christopher Nolan foi citado aqui em
» Guerras Sem Regras, de Guy Ritchie foi citado em
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA/LEITURA ADICIONAL (Clique para ser direcionado!):
» Podcast cinema na Varanda EP 14: Batman vs Superman: A Origem da Justiça
» Confins do Universo 012 – O polêmico Batman vs. Superman
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