Cruella - Nem Mesmo os Deuses Vivem Para Sempre
"As pessoas precisam de um vilão para acreditar"
Sinopse: Analisando a nova versão da personagem Cruella DeVil, Chuck traça alguns paralelos com Deus, Zack Snyder, Esquadrão Suicida e Coringa!
E claro, as principais versões da personagem.
Cruella - Nem Mesmo os Deuses Vivem Para Sempre
Xenófanes (570-480 a.C.), descreveu as divindades gregas com a seguinte frase “Os homens criaram os deuses à sua imagem e semelhança”, e assim como a humanidade muda, evolui e segue indo para onde uma pessoa jamais esteve os deuses nascem e morrem. Assim como o café esfria, o cigarro apaga e o tempo passa e nisso nem mesmo os deuses vivem para sempre. As coisas mudam, tudo se transforma. Mesmo gostando ou não do resultado, por exemplo: Cruella DeVil.
Marc Davis, animador da Disney, podemos chama-lo também de concept designer de personagens, criou Branca de Neve, Alice e Bambi. Foi ele quem, partido das ilustrações de Janet Johnstone (1928–1979) e Anne Grahame Johnstone (1928–1998) para o livro 101 Dálmatas (1956) de Dodie Smith (1896-1990), Davis transformou DeVil em uma mulher magra, sofisticada e extravagantemente louca, elevando muito mais seu amor pelas peles. Sua versão vem sendo a cara da personagem sempre quando ela se apresenta, porém, algo mudou no filme Cruella (2021), escrito e dirigido por Craig Gillespie, de Eu, Tonya, no elenco temos Emma Stone, de Zumbilândia, Emma Thompson, de Os Meyerowitz: Família Não se Escolhe, Joel Fry, de Yesterday e Paul Walter Hauser de O Caso Richard Jewell e Eu, Tonya. Trazendo inspirações dos filmes de Martin Scorsese (Hudson, 2021) e, diga-se de passagem, se ele tivesse um filme classificação doze anos ou livre, com certeza seria algo parecido com o Cruella, e independente de como adaptaram a personagem em si, é legal ver a forma como se homenageia de fato um diretor e não o copia como fez Todd Phillips em Coringa (2019).
Assim como “na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, como disse Antoine-Laurent de Lavoisier, a indústria cultural faz o mesmo com seus remakes, reboots e revivals ou também com prequela, sequência e spin-off, há diversas denominações e formas para se reimaginar uma obra cultural para ela se manter significativa, relevante e lucrativa, por isso Cruella precisou ser reimaginada, contudo, quando a escritora Dodie Smith criou a personagem Cruella DeVil, ainda faltavam duas décadas para o punk nascer, mas a personagem do filme tem sua composição brilhantemente inspirada na Dama Comandante da Ordem do Império Britânico: Vivienne Westwood. Estilista desenvolvedora da moda punk, moderna e figurinista da banda Sex Pistols, a caracterização de Cruella é um espetáculo a parte, uma experiencial visual e estética excelente. O designer de produção é foda, a maquiagem feita por Nadia Stacey de A Favorita (2019) é um espetáculo, mas o figurino a cargo da oscarizada Jenny Beavan de Mad Max: Estrada da Fúria (2015) com certeza é o auge do filme.
Um figurino que fala de moda e ressalta o quanto ela é constantemente alterada, modificada e refigurada. Efêmera, assim como os deuses…
Xenófanes (570-480 a.C.), descreveu as divindades gregas com a seguinte frase “Os homens criaram os deuses à sua imagem e semelhança”, e assim como a humanidade muda, evolui e segue indo para onde uma pessoa jamais esteve, os deuses nascem e morrem. Por exemplo, no do surgimento ao expancionismo do cristianismo deuses deixaram de existir, posteriormente o cristianismo mudou com a reforma protestante e depois veio o movimento pentecostal e logo em seguida surge o neopentecostal. O próprio deus já não é mesmo de ontem, nem hoje e nem será o mesmo amanhã, pois assim como a humanidade e seus feitos nem mesmo os deuses vivem para sempre.
A assim como a palavra do senhor se renova a cada dia a Disney renovou Cruella, e o resultado foi fantástico, apesar de alguns pesares. O filme consegue fazer uma coisa que essas revisitações aos clássicos Disney não conseguiram fazer: surpreender. Indo em busca de um upgrade sem deixar de olhar para os clássicos 101 Dálmatas de 1961, Os 101 Dálmatas live-action de 1996 e os Os Cento e Um Dálmatas o livro de 56, entretanto nem tudo é novo apesar do frescor, nitidamente as cores deste filme remetem ao filme de 61, porém ao se passar no anos sessenta, uma década crível para Ema Stone ser Glenn Close, a Cruella de noventa e seis, jovem, até mesmo por que Glenn de Albert Nobbs (2012) produz esse filme, que não adapta o de 61 nem é prequela de 96, e sim propõem reimaginar a vilã do livro. O roteiro soube transpor pra tela elementos da historia como os cachorros iguais aos seus donos, abandonando o começo um pouco machista e dando sentido do cabelo da protagonista e ao “casaco” de pele de dálmatas.
Dentro da analise só uma coisa pode incomodar, mas para mim foi super gostoso, o excesso de clipes musicais, a trilha sonora casa com acontecimentos do filme e reforça a efervescência cultural da década de sessenta. Deixando tudo muito frenético até porque a cabeça de Cruella é assim rápida, cheia de pensamentos indo de um lugar pra outro em segundos, e também, caso esse filme renda uma inserção na Broadway, aqui temos elementos musicais já direcionado pelo roteiro. A trilha sonora casando com os acontecimentos em cena são os clipes como Zack Snyder faz em seus filmes, é o uso da trilha para contribuir na narrativa mesmo de forma um pouco exagerada, é tudo o que Esquadrão Suicida (2016) poderia ter feito naquele famigerado filme.
Um diretor pode ser habilidoso mesmo não sendo visionário.
Se você perguntar para três pessoas diferentes que creem no mesmo deus, como é o deus delas, você terá três deidades diferentes, se você perguntar pra mim como é Cruella DeVil vou descrever uma diferente da deste filme, contudo, o filme traz no fogo o fim e o renascimento de Cruella em uma belíssima sequência final e a cereja do bolo fica para a cena pós-créditos do filme, cena plantada no início e no meio do filme, eu estava tão absorvido com a trama que não vi Anita e Roger chegando, só reparei quando ouvi uma determinada música tocada ao piano. A criança em mim sorriu de novo e meu dia triste por um momento ficaou alegre.
Cruella está olhando para dentro e se transformando, pois uma propriedade intelectual parada é como capital morto, goste ou não este filme faz todo sentido. Não é o melhor filme do mundo e nem se propõem a isso, a única coisa de fato proposta é a de construir uma personagem nova num filme não-padrão-Disney, mas divertindo como um filme padrão-Disney. Todas as muletas, ganchos, clichês e arquétipos constroem personagens com arcos narrativos que os levam a um lugar. Vi muito aqui da lore de Cruella construída através desses anos e vi muita coisa nova, mesmo sentindo muita falta do cigarro na piteira a Cruella desta nova geração esta em boas mãos até surgir a próxima, pois é isso, o café esfria, o cigarro apaga e o tempo passa, pois nem mesmo os deuses vivem para sempre.
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA/LEITURA ADICIONAL (Clique para ser direcionado!):
» Dodie Smith. Os cento e Um Dálmatas. Londres: Heinemann, 1956.
» HUDSON, Alex. “Cruella” is punk, says director Craig Gillespie. Exclaim!, 25 maio 2021.
» OS 101 DÁLMATAS. Dir. Clyde Geronimi; Hamilton Luske; Wolfgang Reitherman. Walt Disney. EUA: Walt Disney Productions, 1961.
» OS 101 DÁLMATAS. Dir. Stephen Herek. John Hughes. Walt Disney Pictures. EUA, 1996.
» RUDNICK, Elizabeth. Cruella: livro oficial do filme. Tradução de Ana Ban. 1. ed. São Paulo: Universo dos Livros, 2021.
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