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Pro Dia Nascer Feliz — Pode se Estar Condicionado, Mas Não Determinado!


Sinopse: Neste texto sobre um dos filmes titulares na sala de vídeo de escolas do Brasil afora se aborda questões sobre jovens acerca da educação. Deixando uma única questão não respondida: Se a escola é uma representação do mundo em pequena escala, então a história da humanidade é a história dum grande interclasse?

Pro Dia Nascer Feliz/Copacabana Filmes/Divulgação

Pro Dia Nascer Feliz — 
Pode se Estar Condicionado, Mas Não Determinado!
         Dado Villa-Lobos.
       Provavelmente ao ouvir este nome, Dado Villa-Lobos, você logo se lembra da Legião Urbana, correto? É quase um pensamento condicionado mas não determinado, de qualquer modo, se você conhece ou não Dado Villa-Lobos, essa não é a questão, pois quero propor direcionar o olhar para um filme o qual expressa outra faceta do trabalho do músico, a de compositor de trilha sonora, nestas linhas tortas proponho olharmos diretamente ao documentário Pro Dia Nascer Feliz, produzido por Flávio R. Tambellini, de Carandiru, é o segundo longa-metragem do diretor João Jardim, do excelente e cultuado Janela da Alma, este documentário visceral investiga o relacionamento adolescente-escola e a realidade do ensino brasileiro ao som de uma trilha que consegue intensificar a narrativa dos relatos apresentados de forma tão impactante quanto suas imagens, na fotografia fria de Gustavo Hadba, do pouco comentado Entre Nós.

Construído a partir da observação do jovem brasileiro dentro do ambiente escolar, o diretor João Jardim traz à tona questões comuns a qualquer adolescente,  expondo as angústias e inquietações dos jovens, e, em especial, a maneira como ele se relaciona com a escola e seus signos, além daquilo que esta relação acarreta para sua vida, a priori, e a contragosto, o ambiente fundamental para sua formação.
As escolas visitadas no filme são: 
  • Escola Maria Alzira de Oliveira Jorge de Manari em Pernambuco;
  • Escola Coronel Manoel de Souza Neto de Manari em Pernambuco;
  • Escola Antônio Guilherme Dias de Lima de Inajá em Pernambuco;
  • Colégio Estadual Guadalajara de Duque de Caxias em Rio de Janeiro;
  • Colégio Santo Inácio de Botafogo em Rio de Janeiro;
  • Escola Estadual Levi Carneiro de São Paulo em São Paulo;
  • Escola Estadual Parque Piratininga II de Itaquaquecetuba em São Paulo;
  • Colégio Santa Cruz de São Paulo, em São Paulo.
Divulgação
Passando por desigualdades sociais e o impacto da banalização da violência no desenvolvimento deste e de outros jovens, Pro Dia Nascer Feliz passa por três estados brasileiros e por duas classes sociais distintas pintando um quadro das desigualdades e da violência no país a partir da realidade escolar, corroborando Carlos Rodrigues Brandão a respeito da Educação e evidenciando o viés ideológico dela e o fato de não haver meios possíveis para uma conciliação de classes, veja:

Não há apenas ideias opostas ou ideias diferentes a respeito da Educação, sua essência e seus fins. Há interesses econômicos e políticos que se projetam também sobre a Educação. Não é raro que aqui, como em toda parte, a fala que idealiza a educação esconda, no silêncio do que não diz, os interesses que pessoas e grupos têm para os seus usos. (BRANDÃO, 1989, p. 27).
 
         Entre o cômico e o trágico, mas sempre dentro das debilidades do sistema educacional brasileiro, este documentário poderia facilmente ser um objeto de estudo do tema: O Fracasso Escolar. O que se ensina, quando se ensina, é currículo de bases estruturadas a partir de uma ideia excludente, composto por uma elite cujo objetivo é formar mão de obra barata, transferindo um conhecimento raso e proporcionando o fracasso escolar emergir, pois se esquecem do que é ensinar: Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua própria produção ou a sua construção. (Freire, 2003, p. 47). 

Hoje, como já há algum tempo, às escolas funcionam como aparelhos repressores do Estado, sua estrutura e concepção teórica não visam a emancipação do indivíduo, são repositórios de vida humana onde esperam madurar e tal qual um processo de homogeneização social, num ensino essencialmente burocrata, monodialógico e tecnicista, desta forma excludente e punitivo. Nisso, o sistema tenta preparar mão de obra como produtos para atender a demanda de mercado num Toyotismo Torto¹, que entende e atende à demanda, entretanto como não há ausência de estoques; os egressos do sistema educacional serão forçados a fazerem parte do exército industrial de reserva²
    Escolas são pequenas panelas-de-pressão-social prontas para explodir, alunos, professores e funcionários no geral, alocados de forma a construir uma hierarquia de dominação e perpetuar a teoria da carência cultural, propondo que o fracasso escolar, citado anteriormente, ocorre devido à deficiência ou privação cultural do aluno em decorrência das suas condições de vida, em pressuposto, precárias.
Repetência, evasão e aversão, além de notas ruins, violência e não apreensão do conteúdo são consequências de uma política pública de sucateamento da educação a partir do início dos anos setenta com a teoria da carência cultural e teve sua intensificação em meados dos anos noventa com o governo do Partido da Social Democracia Brasileira na figura de Fernando Henrique Cardoso e no estado de São Paulo nos mais de vinte anos de governo da agenda neoliberal do partido.
*
Divulgação
Documentário é uma produção artística e por via de regra não-ficcional, caracterizado, principalmente, pelo compromisso da exploração da realidade, mas não como ela é, pois, o próprio, assim como o cinema de ficção, é uma representação subjetiva da realidade. Nós somos constituídos enquanto sujeito a partir do mundo que recebemos, mundo este, anterior ao nosso, somos moldados por um conjunto de signos e percepções sobre a realidade, visões materiais dessa realidade, diante disso, é impossível não reparar como em Pro dia Nascer Feliz os jovens tratam com desprezo, ou como a violência é o que pauta, a relação deles para com todas as pessoas, instituições e símbolos ao seu redor.

Ao ver o documentário o conceito d’O Grande Outro de Jacques Lacan martela nossa cabeça, bem resumido, essa construção teórica habita o campo simbólico da linguagem e da cultura, ela representa a dimensão do outro na nossa vida é uma forma de compreender como nos relacionamos com o mundo e com os outros. É pelo Grande Outro onde nós interiorizamos as leis e regras sociais, além de lidar com nossas identificações e nosso desejo, assim moldando nossa realidade. 

A realidade nada mais é do que o real atravessado pela linguagem, e a linguagem aprendia por essas crianças é a violência, as suas histórias são escritas a partir da única linguagem adquirida e o gênero documentário constrói uma retroalimentação entre narrativa e realidade, uma troca daquilo existente no roteiro do filme ou na história a qual o filme quer contar e que vai passar para a realidade e da realidade para a narrativa até alcançar o espectador. 
Lenin em Diretrizes sobre o Setor Cinematográfico de 1922  convoca a produção de novos filmes imbuídos de ideias comunistas e que refletissem a realidade soviética, pois para ele, de todas as artes a mais importante é o cinema, no documentário, assim como na Educação e em toda produção cinematográfica de qualquer gênero, há interesses econômicos e políticos que se projetam, interesses que pessoas e grupos têm para os seus usos.
Apesar disso Pro Dia Nascer Feliz segue toda a rodagem sem ser panfletário mostrando a escola cumprindo seu papel ideológico neste estado neoliberal, formando, segundo seu desejo, a grande maioria dos encarcerados no sistema educacional brasileiro como massa de manobra utilizada para perpetuar os interesses políticos, sociais ou econômicos, formando seres sem liberdade.
Ser o desejo do outro, senão o nosso, anula a liberdade.
Sendo assim, como já disse, algo pode se estar condicionado, mas não determinado, pois há quem rompa com o condicionamento do sistema, uma das jovens retratadas no filme é Valéria Fagundes, na época estudante do interior de Pernambuco, morando em Manari, que, até então, possuía o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, agora, Valéria atua como Jornalista e, segundo ela, é apaixonada por Educação, Literatura e Cultura, é palestrante, oficineira e educadora com ênfase em práticas contemporâneas, muito provavelmente fazendo parte da construção de uma escola melhor do que as retratadas no filme.

       Em suma, Pro Dia Nascer Feliz de 2006 ainda é atual, expõe os problemas, as contradições e os desafios da educação no Brasil, através de relatos dos discentes e docentes, os protagonista do processo educacional, relatando suas visões acerca da educação, falam sobre suas angústias e propõem reflexões; desse modo, ao ver o filme e pensar na educação, concluímos que são as diversas as defasagens ocorridas no processo do ensino, indo mais além incluindo o superior, não só o médio e fundamental; e neste documentário temos um relato cru daquilo que é a escola: Um fracasso. Mas, pra não dizer que não falei de flores, temos de observar estes ditos fracassos escolares e as diversas pesquisas relacionadas a ele propondo conceber explicações plurais sobre o sistema de ensino, e, partindo disto, nadando contra a corrente, busquemos formas de oposição e enfrentamento ao status quo para construir uma escola atrativa e emancipatória dentro de uma perspectiva socioeconômico-cultural, pois dentro de uma escola precisamos de indivíduos dando apoio pedagógico e psicológico, além de social e cultural, para os alunos, sanando quaisquer questões voltadas para as desigualdades sociais e escolares.
Portanto, Pro Dia Nascer Feliz forma o que eu gosto de chamar de a “Trilogia da Sala Vídeo” pois ao somar-se a Ilha das Flores e Adeus, Lênin, eles vêm ao longo dos anos sendo carregados a tiracolo por diversos educadores para serem exibidos na sala de aula e espero que continue assim, pois este  documentário não só apresenta um recorte da realidade de escolas brasileiras, mas propõe a reflexão sobre a pressa e a pressão dos jovens terem de saber cedo demais quem são dentro deste sistema mercantilista e deixa a pulga atrás da orelha para o nosso papel nesta história e aquilo que podemos fazer pro dia nascer feliz.

Em tempo, caso conheça ou não Dado Villa-Lobos, ouça o álbum Jardim de Cactus.
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NOTAS:
¹Prezando por suprir a demanda eliminando os estoques Toyotismo é um modelo de produção industrial japonês conhecido pela adoção do Sistema Just-in-Time (por demanda / na hora certa).
²O Exército Industrial de reserva é a força de trabalho excedente às necessidades da produção, este conceito desenvolvido por Karl Marx em sua crítica da economia política refere-se ao desemprego estrutural e sistemático das economias capitalistas.
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Bibliografia usada neste texto:
 > PRO DIA NASCER FELIZ. Direção: João Jardim. Copacabana Filmes. Brasil, 2006. DVD.
> JARDIM DE CACTUS. Dado Villa-Lobos, Rock It!, 2009. CD.
> FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia - Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2003.

> BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é Educação.19. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989.
> VLADIMIR, Lênin. Diretrizes Sobre o Setor Cinematográfico. Publicado pela primeira vez em 1925 na revista Kino-Nedelya N° 04.

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