Tenha Fé - Quando Um Padre e Um Rabino Amam
"Eu trabalho mais duro que Deus. Se Ele tivesse me contratado, Ele teria feito o mundo até quinta-feira."
Sinopse: Neste texto, Chuck reflete sobre o triângulo amoroso de um padre, um rabino e uma executiva em Tenha Fé, mas encontra no filme algo que vai além do romance. Entre dúvidas vocacionais, crises pessoais e as contradições da vida acadêmica, a obra revela reflexões sobre escolhas, frustrações e a busca pelo nosso lugar no mundo.
Quando Um Padre e Um Rabino Amam Uma Mulher – Tenha Fé
O que pode acontecer quando um padre e um rabino amam a mesma mulher? Como diria o narrador de trailers antigos:
— Altas confusões.
Bom, sim, porém o legal é quando a história, mesmo contendo isso, não foca nisso, veja, para ser claro, por esses dias revi pela terceira vez o filme Tenha Fé (2000) e, na revisão, eu me lembrei do dia de minha matrícula na Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), campus de Marília, naquele dia eu estava bêbado e feliz. Há um tempo venho pensando nessa época e em um dos caras que me fez querer enveredar pelas Ciências Sociais, ele era um sapateiro, e não fez “Sociais”. Também, no meio dos seus escritos não tenho certeza de ter lido algo dizendo “Vá para as trincheiras da faculdade”, no entanto eu fui…
Na faculdade entre intelectuais falando de trabalho sem nunca terem ido a uma fábrica ou feito qualquer outro tipo de trampo, entre intelectuais orgânicos mais sintéticos que as drogas que usavam e uma produção intelectual mecanizada e raramente original; quase perdi minha cabeça, metaforicamente. Mesmo levando a graduação de boa ou “nas coxa” como diziam na quebrada, eu tive um momento de dúvidas, o que logo depois me levou a uma crise de pânico, onde me lembrei do filme Tenha Fé.
Um rabino e um padre entram na vida de uma garota, fazendo, assim, amigos de infância criarem um estranho triângulo amoroso que sabemos onde começa e também onde vai acabar. Tenha Fé é um filme leve para tempos pesados, trazendo um olhar perspicaz sobre vocação, fé e relacionamento. Ótima estreia na direção de Edward Norton, (de Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe, 2019), o filme foi escrito por Stuart Blumberg (de Minhas Mães e Meu Pai, 2010 )e vem “elencado” com Jenna Elfman (de Looney Tunes: De Volta à Ação, 2003), Ben Stiller (de Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, 2017 e Turma da Pesada, 1995) e também o próprio Norton.
Antes das perguntas surgirem, de antemão vou dar algumas respostas:
Sim, o filme é mediano, mas não desaponta;
Sim, Stiller não tem pinta de galã de cinema, mas quem na vida real tem?;
E não, o filme não é apenas um triângulo amoroso com ângulos religiosos.
Para alguns talvez o filme pareça raso se apenas o limitarem a um romance, mas a película traz vários outros pontos a serem discutidos e aqui quero destacar a DÚVIDA.
A dúvida me atingiu em cheio durante o período da graduação, em que quase fui vítima daquilo que Maurício Tragtenberg descreveu como Delinquência Acadêmica, nas palavras dele “a não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de ‘delinquência acadêmica’ ou de ‘traição do intelectual’” (2002, p. 180). Trata-se de um produto de uma “concepção capitalista do saber” (p. 178), na qual, através da busca desenfreada por titulações, publicações e pontuações acadêmicas, o intelectual acaba pagando para apresentar trabalhos a si mesmo ou a um pequeno círculo de colegas. Estes, por sua vez, revezam-se entre falantes e ouvintes, muitas vezes sem interesse no conteúdo ou na qualidade da produção, mas apenas na quantidade de pontos que ela pode gerar. Pouco importa se alguém lerá o artigo; o ideal é que seja uma publicação internacional, ainda que em um país vizinho, onde publicar em espanhol é mais fácil. Para ilustrar, lancemos uma pitada de Max Weber, ou quase:
— O diploma substitui o direito de nascença.
Em Tenha Fé, o personagem de Norton duvida de si, de seu trabalho e daquilo que sempre quis ser por conta de seu amor, e em uma conversa com seu mentor interpretado por Miloš Forman (1932-2018) de forma descompromissada, diretor de Um Estranho no Ninho (1975), ele descobre naturalmente que o clérigo além de já ter tido uma relação amorosa, costuma se apaixonar uma vez a cada década…
Queria eu ter contado com um “Milos Forman” na minha graduação, mesmo sem levar a sério, a violência da vida acadêmica me dominou, quando percebi a sua opressão eu já havia deixado de fazer minha arte, e até mesmo de agarrar algumas oportunidades, as quais me soavam como as melodias angelicais devem soar, minhas neuroses voltaram e por um momento achei até que a depressão, então pensei “Porra, pirei!”, mas não. E nesse ponto revi pela segunda vez Tenha Fé, cujo único ponto negativo do filme é a possibilidade dele cansar um pouco nas suas, sem qualquer necessidade, duas horas, mas se não fossem essas horas a mais não teríamos a brilhante ideia de dar ritmo ao filme inserindo alguns quase “videoclipes” para a transição entre os atos da trama, é brega, mas eu gosto, em uma cena de corrida no parque é possível imaginar uma bela referência a Jules e Jim: Uma Mulher Para Dois (1962) de François Truffaut (1932-1984).
Outro ponto que vale destacar é a forma como o filme se vende, a comédia, forçando a inserção de piadas onde acaba se perdendo em alguns momentos, mas sem deixar distanciar o espectador do drama de seus personagens. De modo geral, Tenha Fé é um filme simpático e não deveria pertencer à comédia, piadas precisam de timing e timing não há aqui, no quesito comédia o filme falha, contudo, possui diversos pontos deixando-o interessantíssimo, por isso gosto de encará-lo como um drama leve, mas muito, muito leve mesmo. Pois o ponto chave do filme está no drama vivido pelos personagens, o padre tem dúvida sobre sua incumbência neste trabalho, o rabino se sente pressionado pela sua comunidade e tradições, mesmo apanhando bastante nos primeiros anos dos sacerdócio e cercados por dúvidas nossos protagonistas fazem suas escolhas memso assim.
Agora como eles lidam com tudo isso?
Para saber você terá de ver o filme, pois quero dizer apenas que a dúvida sempre existiu e sempre existirá, e Tenha Fé deixa evidente como ela acomete a todos e mesmo com a angústia gerada devemos ter paciência e lidar da melhor forma, sendo assim, após ver o filme penso que ter deixado a graduação em Ciências Sociais foi em partes uma boa coisa apesar de ter sido uma decisão difícil, acredito não ter sido a melhor das escolhas, mas na falta de amparo das políticas de permanência estudantil foi uma escolha mais necessária, veja, viajei por aí, trampei, consumi e fiz minha arte, coisa que não teria feito se tivesse permanecido na graduação.
Enfim, pra terminar, achei que eu poderia usar as Ciências Sociais como um fator de transformação social, mas me enganei e isso continua como uma decepção áspera e amarga descendo pela minha garganta. Fico feliz pelos amigos que prevaleceram onde eu sucumbi, porém com a certeza de que a Academia apenas brilhará aos olhos da sociedade e do povo trabalhador quando arder em chamas.
» Assista ao filme: Tenha Fé
EXTRA:
» Os Meyerowitz foi citado aqui 👇
» Turma da Pesada foi citado aqui 👇
BIBLIOGRAFIA SELECIONADA/LEITURA ADICIONAL (Clique para ser direcionado!):
» TRAGTENBERG, Maurício. A Delinquência Acadêmica. Verve: revista semestral autogestionária do Nu-Sol, São Paulo, n. 2, p. 175-184, 2002.
» WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1982.
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