Dor e Glória - Mais um Desabafo Que um Bilhete Suicida
"Admito que o texto está um pouco melodramático agora"
Sinopse: Neste texto, Chuck reflete sobre o momento da vida em que todos nós relembramos primeiros amores, desejos e paixões, além do interesse precoce pelo cinema — esse último talvez não. De qualquer forma, refletindo sobre o tempo, as dores e tantas outras coisas, fala um pouco sobre Dor e Glória, de Pedro Almodóvar.
Mais um Desabafo que um Bilhete Suicida — Dor e Glória
O tempo passa e as dores parecem maiores e mais frequentes que as glórias. Com o passar dos anos, fui acometido por gastrite nervosa, dores nas costas, enxaqueca, sinusite, bronquite asmática e tantas outras coisas muito incômodas. Daria mais de um verso inteiro da música O Pulso (1989), da banda Titãs. Por isso, ao dar o play em Dor e Glória, rolou aquela identificação logo de cara.
Dor e Glória, de 2019, é um filme espanhol dirigido por Pedro Almodóvar (1949), de Carne Trêmula (1997), e conta com Antonio Banderas (1960), de ¡Átame! (1989) — e também Assassinos (1995), longa citado no Três Minutos Podcast #14). Também temos Julieta Serrano, de Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), e Penélope Cruz, de Volver (2006).
Em Dor e Glória temos um Almodóvar de poucas palavras e muitos sentimentos, tanto na execução técnica quanto no próprio roteiro, explorando uma trama intimista. O longa constrói uma dialética entre passado e presente de uma vida que, entre dores e glórias, está se esgotando. A infância e a velhice estão em contraplano, compondo imagens vividas como em uma pintura. A infância se mostra pálida, quase monocromática, cercada por paredes pintadas com cal, enquanto a velhice é colorida, escandalosa, compondo uma imagem em que aquela criança, antes uma tela em branco, agora está marcada por traço que saíram do esboço e foram para a arte final.
Com essa representação poética, podemos sentir na tela parte da vida de Pedro Almodóvar, não que o autor tenha vivido exatamente os diálogos e situações apresentados na película, mas percebemos sua relação com os diversos temas ali expressos, tal qual o desentendimento com determinado ator. Pedro se desentendeu com vários; o próprio Banderas é um deles, aliás, Antonio constrói um lindo alter ego para o diretor, utilizando os mesmos trejeitos, o mesmo corte de cabelo e, o mais óbvio e clássico, os óculos escuros.
Chega um momento na vida em que tudo o que podemos fazer é sentir, mesmo a dor. A dor é sempre precursora do fim e, aqui, Pedro segue o caminho de diversos artistas que confrontaram seu próprio fim, transformando sua existência em obra de arte. Entretanto ele não faz isso por conta da idade; essa é a sina de todo artista. Eu mesmo, com minha atual melancolia, me sinto contemplado por todo o sentimento colocado em tela, mesmo estando longe dos setenta anos. Maesmo não sendo o artista que ele é.
A mais bela representação poética do longa está no florescer da sexualidade do protagonista. Dá para contar nos dedos as boas representações da homossexualidade na sétima arte, porém aqui Almodóvar consegue reunir beleza, naturalidade e inocência numa cena em que um corpo nu é iluminado pelo sol, cercado por paredes brancas, construindo o endeusamento e a pureza daquele momento. O diretor compõe a vida com naturalidade: a sexualidade brota ali, na infância, numa cena distante e cercada por um fundo neutro, a qual culminará em um plano próximo de um beijo real, visceral e apaixonado, cercado por cores. Mesmo não sendo utilizada como engrenagem para mover a narrativa, a sexualidade do personagem é importantíssima para a composição de sua identidade e, consequentemente, da identidade do próprio diretor.
Toda a trama soa sincera.
Já há algum tempo venho cuidando da saúde. Dei um tempo no álcool, no tabagismo e mudei a alimentação. Passei a correr todos os dias. Fiz de tudo para tentar melhorar as dores do corpo e da alma, como se diz no roteiro de Almodóvar. No filme, Salvador Mallo (Antonio Banderas) relembra sua vida e sua carreira, passando pelo primeiro amor até sua primeira paixão.
Tudo cercado por dores e glórias.
Em Dor e Glória, vemos o protagonista fazer as pazes com um filme realizado por ele há trinta e dois anos, o qual, depois da estreia, nunca havia assistido novamente. Claro, isso é uma metáfora para pessoas, sentimentos e lugares. Durante todo o filme, refleti sobre coisas com as quais eu ainda não havia feito as pazes: pessoas, trabalhos e sentimentos. Almodóvar sabe como criar uma conexão com o espectador mesmo narrando uma história tão pessoal e intimista. O próprio diretor disse que este é o seu projeto mais pessoal.
Com um Pedro Almodóvar maduro, consistente e apaixonado, sem a passionalidade de antes, a fita carrega um grande plot twist quando revela o que foi processo criativo e o que foi a obra nascida desse processo, encerrando tudo em uma única palavra:
— CORTA!
Não sou um grande fã da filmografia de Almodóvar, mas defendo com unhas e dentes os filmes dele de que gosto, e Dor e Glória é cinema foda. Almodóvar se mostra um diretor com pleno domínio da forma cinematográfica. Como exemplo, veja como a inserção em “PowerPoint” no começo do filme, destoando do restante da narrativa, até os flashbacks de um velho motivados por heroína, se encaixam em um mosaico cujo resultado é um drama que passa facilmente por uma comédia ironicamente melancólica.
Apesar de toda a tristeza, o filme não me parece um bilhete suicida propondo o fim do realizador, mas sim um desabafo em um diário. O diretor coloca diversos pontos finais em questões hipocondríacas, mas não de uma forma que indique que ele irá parar de fazer filmes. Pelo contrário, devido a tudo o que viveu, ele irá produzir mais devagar e saborear mais a forma de fazê-los, como propõe, sem spolier, o final do filme.
Ao final da projeção — coloco aqui “projeção” por vício de linguagem, pois vi o filme no streaming — temos um elemento artístico da infância do protagonista retornando a ele, mostrando que a arte permanece independentemente de seus autores ou, neste caso, modelos.
Para mim, Almodóvar constrói aqui um filme para celebrar o passado, o presente e o futuro. Um final que deixa vago o porvir do protagonista, mas estabelece a certeza de que sua vida está ali representada, entregando assim uma única mensagem ao espectador, independentemente de suas dores e de sua idade:
— Continue!
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