Chi-Raq - Um Grito Contra a Sociedade que Mata
“EU PAGUEI A BALA QUE MATOU MEU FILHO” Débora Silva Maria
Sinopse: Neste texto sobre Chi-Raq, Chuck aproxima a realidade de Chicago retratada por Spike Lee da luta do Movimento Mães de Maio no Brasil, conectando a dor de mães que perderam seus filhos para a violência do Estado. Transformando a guerra entre gangues numa denúncia sobre racismo, desigualdade social e a violência que atinge comunidades periféricas.
Um Grito Contra a Sociedade que Mata - Chi-Raq
Pesquisando acontecimentos recentes cheguei até a hashtag #BlackLivesMatters (#VidasNegrasImportam), foi quando Spike Lee (1957) compartilhou um curta-metragem em suas redes sociais traçando um paralelo entre a morte de Eric Garner, George Floyd e o personagem Radio Raheem (Bill Nunn) de Faça a Coisa Certa (1989), então fui até a filmografia de Spike Lee ver algumas coisas que ainda não tinha visto e acabei esbarrando em Chi-Raq. Eu o assisti, e como é de praxe, um filme não acaba quando termina. E eu preciso falar sobre ele.
Mas antes disso é preciso dizer que Chi-Raq é a gíria que funde os nomes Chicago e Iraque, o apelido surgiu nos anos 2000 quando a cidade atingiu a maior taxa de homicídios do EUA, o repórter Chuck Goudie (1956) da ABC7 Chicago, apresentou a estatística que de 2003 a 2012, 4.265 pessoas foram mortas em Chicago, número igual, se não maior, ao de soldados americanos mortos no Iraque no mesmo período1.
Por isso a primeira produção original do Amazon Studios de (Pass Over, 2018), veio dar voz e rosto as pessoas mais afetadas pela violência da cidade, o filme foi lançado em dois mil e quinze sem barulho e não ganhou tanta repercussão.
Chi-Raq me fez lembrar de um evento que participei um ano antes de seu lançamento, foi durante minha graduação em Ciências Sociais na UNESP de Marília. Lá tivemos a presença de Débora Silva Maria (1959) coordenadora e uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio. A atividade foi realizada em comemoração ao dia Internacional da Mulher e organizada por diversas entidades em parceria com a Associação de Moradores do Bairro Vila Barros, comunidade, até então, considerada a maior favela da cidade, há anos sem políticas públicas de desfavelamento e com um alto índice de vítimas de violência, em paralelo ao local em que Chi-Raq foi filmado, Englewood, conhecido como um dos bairros mais perigosos de Chicago.
A primeira atividade foi um debate, me lembro que logo no início me emocionei, Débora começou com um discurso pesado, sincero e político, sem medo e direcionado “EU PAGUEI A BALA QUE MATOU MEU FILHO”, depois foi exibido o curta Mães de Maio: Um Grito por Justiça (2012), de Daniela Sant'ana, o curta é composto de depoimentos das mães que tiveram seus filhos mortos por ação da Polícia Militar em Maio de dois mil e seis no estado de São Paulo. No curta podemos ver a barbárie que foi o ato policial matando pardos, pretos moradores da periferia. Uma das mortes foi a de Ana Paula Santos, grávida de nove meses de Bianca. A polícia matou no dia 15, nasceria no 16. E você deve estar se perguntando:
— O que isso tem a ver com Chi-Raq?
O filme escrito por Spike Lee de (Ela Quer Tudo, 1986) em parceria com Kevin Willmott de (Infiltrado na Klan, 2018) evidencia a violência sofrida pelo periférico dentro de uma releitura moderna da peça Lisístrata (411 AEC), escrita por Aristófanes (446 - 386 AEC). O filme conta a história de um grupo de mulheres se unindo após a morte de uma criança por uma bala perdida por a uma guerra de gangues. Elas organizam um movimento contra a violência.
Fazendo greve de sexo.
Agora você pode estar achando isso surreal e questionar a eficácia do ato, porém a graça do filme está no fato disto ser inspirado por EVENTOS REAIS, e a própria narrativa de Chi-Raq aponta para Leymah Gbowee (1972) líder da greve de sexo que encerrou a Guerra Civil na Libéria2 e o filme traz outros fatos também como a Igreja com o Jesus Preto no altar3, pastor branco que usa roupa afro4 interpretado por John Cusack de (Quero Ser John Malkovich, 1999) e as mães que aparecem com as fotos de seus entes queridos mortos pela violência. Até a produção musical do lugar está em cena5, o que me leva ao estilo do filme, podemos resumi-lo como comédia-musical com uma mistura de gêneros. Nessa mistura de gênero a música se destaca, além das linhas de diálogo serem em rimas pra fazer alusão a obra a qual o filme é inspirado e obviamente aproximar-se do RAP, a trilha vai passando por diversas vertentes da música negra, fazendo o sentimento chegar a flor da pele! Spike Lee é um documentarista de mão cheia e trazer essa habilidade para seu roteiro ao mesclar fato com ficção é genial, e isso ele aperfeiçoou com o tempo como podemos ver em Destacamento Blood (2020).
No elenco temos grandes nomes, e atores que conseguem entregar um peso dramático na atuação fora do normal como Nick Cannon que além de protagonista canta o tema que abre o filme: Pray 4 My City, e Teyonah Parris (de Se a Rua Beale Falasse, 2018), além dos já conhecidos do diretor Wesley Snipes (de Febre da Selva, 1991), Samuel L Jackson (de Lute pela Coisa Certa, 1988) e Angela Bassett (de Malcolm X, de 1992).
Spike Lee tem outros filmes que poderiam traçar o paralelo melhor com a situação de violência em que vivemos? Sim, mas Chi-Raq, vem pedindo paz em manifestações por todo o mundo, assim como vem acontecendo agora, a película abre mostrando a violência de Chicago, onde houve 2.500 vítimas de armas de fogo nos dez primeiros meses de 2015, assim misturando tragédia, comédia e sátira, romance, documentário e musical, a trama alcança um resultado dinâmico e forte com seu enredo direto atualizando com êxito a peça de 2430 anos de idade, inserindo em tela textos, aos quais parecem ser, de mensagens em redes sociais de forma eficiente e extremamente elegante.
Mantendo a teatralidade na cinematografia a impressão é de que todos os personagens estão em um palco e que na verdade estamos assistindo a uma peça no teatro da vida real. Samuel L. Jackson interpreta Dolmedes, que atua contextualizando os acontecimentos através de sua poesia, nos levando pela história.
Devo ressaltar aqui a fusão da fotografia de Matthew Libatique (de O Plano Perfeito, 2006) com a direção de arte de David Meyer (de O Lobo de Wall Street, 2013), a fusão é absurda, é o que sustenta a teatralidade com uso da meta linguagem, da quebra da quarta parede até a caracterização da personagem principal, sempre usando algum acessório que indique poder, criando assim uma aura de rainha; A obra deixa bem claro quem é o que pertence a cada personagem através das cores, figurinos e cenários, a estética é atraente e envolvente. À medida que a história vai evoluindo você vai percebendo como as cores interagem, se misturam, e pouco a pouco vão sumindo junto com a rivalidade de cada uma das personagens, até o fim com todos usando uma determinada cor.
Entretanto, nem tudo são flores, antes de preto, antes de diretor, antes de artista brilhante, Spike Lee é homem e, claro, há um problema no filme: a sexualização das mulheres. Spike sexualiza o corpo masculino também, mas peca na hiper sexualização do corpo feminino, se esquecendo da capacidade cognitiva reduzida de alguns homens, ele acaba colocando perspectivas comprometedoras podendo servir muito mais para o fetiche que contribuindo pra narrativa. Não quero colocar Lee como vilão aqui, ele errou assim como Quentin Tarantino em Era Uma Vez em Hollywood, isso é um ponto incômodo que facilmente se resolveria com uma leitura sensível no projeto, mas não deixe essa escolha narrativa do diretor te afastar do filme, ele também trás o sexo feminino e o estigma de servirem para o prazer em nossa sociedade patriarcal e usa isso como arma e isso junto ao que já foi dito faz a película valer cada segundo.
Na arrebatadora sequência final o grupo de mães que clama pelo fim da violência que mata seus filhos entra em cena, um grupo assim como as Mães de Maio, um grupo fruto desse Estado que não é democrático e nem de direito e sim fascista e de repressão, um grupo de mães e familiares, vítimas da violência que se uniram em um movimento, um grito contra a sociedade que mata, lutando por uma nova forma da segurança pública preventiva e comunitária, querendo justiça.
E essa semelhança entre as Mães do Filme com as Mães de Maio surge pois Spike Lee é um cronista da experiência negra que de forma leve, mas provocativa, evidencia uma preocupação não só dos EUA, mas do mundo, a violência que afeta só pardos, pretos e periféricos. Foi essa violência que Débora trouxe para o debate que citei no início do texto, em momentos deixando de se usar “Meu filho” para se referir a sua prole como “Meu morto”, ela disse “Eu tô aqui pra ser a voz, o grito do meu morto, para conscientizar, o remédio é a luta!”, as mães de Maio são mulheres que transformaram a dor da perda na luta por justiça e hoje buscam um reconhecimento da sua causa para que vidas não sejam perdidas em vão.
O filme Chi-Raq é um misto de muitos estilos, mas, em seu cerne, é um musical, talvez algumas pessoas não gostem, mas é como eu disse Spike Lee é o cronista da experiência preta colocando temas delicados e desconfortáveis mexendo com tabus, um provocador nato que procura trazer reflexão de forma simples e direta, buscando o mesmo que qualquer pessoa no mundo, colocando nas palavras do personagem Dolmedes:
— Paz e amor!
EXTRA:
» Sáiba mais sobre o Movimento Mães de Maio: Instagram
» Assista ao filme: Mães de Maio: Um Grito por Justiça:
» Há alguns anos Chuck escreveu um texto sobre o evento citado aqui, leia!
» Ouça o tema o tema do filme: Pray 4 My City
» Tarantino foi citado aqui:
GOUDIE, Chuck. Despite ‘Chiraq’ Label, data show Chicago not even close to Iraq. ABC7 Chicago, Chicago, 28 jul. 2015.
CARTA CAPITAL. Leymah Gbowee, Lísistrata Moderna. CartaCapital, São Paulo, 9 set. 2013.
SAINT SABINA CHURCH. Saint Sabina Church. Chicago: [s.n.], s.d.
BLAKLEY, Derrick. Cusak, Pfleger Forge Bond During Filming Of ‘Chi-Raq’. CBS News, Chicago, 1 dez. 2015.
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