Crianças Cristãs Precisam de Entretenimento Saudável - Trilogia Pânico

Trilogia Pânico/Dimension Films/Distribuição
Crianças Cristãs Precisam de Entretenimento Saudável - Trilogia Pânico
Dedico estas palavras a prof. Inês Valéria Finatti, obrigado pelos DVD’s gravados em sala de aula.
 
O que eu mais gostava na escola era conversar sobre cinema, eu e meus amigos tínhamos até um cronograma: Segunda feira falávamos sobre os filmes vistos no fim de semana, na terça feira falávamos do filme visto na segunda a noite. Na quarta o filme visto na terça e quinta eu pelo menos não falava nada pois quarta a noite era de futebol, e na sexta falávamos do filme visto quinta a noite e quais filmes queríamos ver sexta ou alugar para o fim de semana, era um ciclo muito bem definido pois crianças cristãs precisam de entretenimento saudável. E em algum momento durante esse ciclo conhecemos um filme que mudaria tudo, conhecemos TODO MUNDO EM PÂNICO!
 
Bom, você não leu errado, mas ao conhecer a comédia, pude conhecer Pânico, assim, naquela época entendíamos que Tudo Mundo em Panico estava satirizando algo ainda não conhecido por nós e não era um filme para a nossa idade.  Pois bem, até aquele momento eu sabia da existência, mas nunca tinha realmente visto Pânico, a máscara de seu assassino com cara de fantasma estava no imaginário popular, e foi aí onde eu decidi mergulhar nessa, até então, trilogia. Pânico foi dirigido pelo mestre icônico Was Craven de Voo Noturno e foi escrito por Kevin Williamson de Prova Final, Craven dirigiu os três filmes da trilogia enquanto Williamson dos três não escreveu o terceiro, pois compromissos com outros projetos não o deixaram desenvolver Pânico 3, porém ao leiloar seu roteiro pro primeiro filme, junto, Williamson, também vendeu esboços para duas sequências do roteiro original, mostrando o potencial de sua ideia se tornar uma franquia e caso não pudesse eventualmente escrever seu nome ainda estaria vinculado ao projeto.
 
Dentro da rotina descrita por mim a pouco falávamos com prazer e entusiasmos de filmes, porém quando nossos olhos foram voltados para Pânico, um novo mundo se abriu e se abriu, pois, a identificação com um grupo de jovens falando sobre cinema na sala de aula com o professor, no nosso caso professora, parecia muito com a gente e quando descobrimos AS REGRAS, conseguimos analisar os filmes de outra forma, e grande parte dessa identificação se dá na utilização de uma linguagem metalinguística, ágil e divertida. A Metalinguagem utiliza o seu próprio código para explicá-la, no caso da franquia Pânico se trata de uma metanarrativa para, por exemplo, falar de um filme dentro de um filme. Vale lembrar, nós utilizamos muito a metalinguagem no dia-a-dia e em outras mídias como na pintura, com certeza você já viu a obra Autorretrato com a Orelha Cortada de Vincent Van Gogh.

Em Pânico 1 iniciamos a história um ano após o assassinato da mãe de Sidney Prescot e um grupo de jovens enfrentam um assassino em série que testa seus conhecimentos sobre filmes de terror. Aqui vem a metanarrativa pois desta maneira o filme explica a motivação do assassino, ele está simulando um filme de terror e Randy Meeks personagem interpretado por Jamie Kennedy de Inimigo do Estado, nos dá algumas regras para analisar um filme de slasher, e as regras são:
Regra 1: Se você fizer sexo vai morrer.
Regra 2: Usou drogas, não vai sobreviver.
Regra 3: Disse “Volto já”. você morre.
Regra 4: Todo mundo é suspeito.
Regra 5: Perguntou “Quem está aí? ”, já está morto.
Regra 6: Saiu para investigar um barulho estranho, então não vai voltar.
Cartaz por Chuck
E quando aplicamos essas regras, elas realmente se encaixam em filmes como “O Massacre da Serra Elétrica”, “Sexta-feira 13”, “Halloween” e além de outros o “A Hora do Pesadelo” do mesmo diretor de Pânico
No elenco de Pânico temos Neve Campbell de Jovens Bruxas, David Arquette de Malditas Aranhas!, Courteney Cox de Um Faz de Conta Que Acontece (filme já citado aqui) e Matthew Lillard de Scooby-Doo, além claro de Drew Barrymore de Donnie Darko, e, sem duvida, o elenco carismático ajudou Pânico a se tornar um marco do cinema de terror, porém além de aterrorizar, ele quer entreter, Pânico trás em si uma subversão dos clichês do gênero para fins de sátira, acrescentando uma dose de suspense, o filme não desperta medo, ele nos provoca curiosidade, o desejo de saber quem é o assassino, pois em essência, a trama é um “Whodunit”, em português “Quem fez isso?”.

E assim como eu, meus amigos e nossa professora não paramos de falar de cinema, as regras também não ficaram apenas no primeiro filme e nem a metalinguagem, no princípio da sequência somos situados dois anos após o massacre em Woodsboro, alguns dos sobreviventes tentam refazer suas vidas, porém, logo na estreia do filme baseado no incidente inicia-se uma nova onda de mortes onde um assassino em série testa seus conhecimentos sobre sequências de filmes. E mais uma vez Randy nos agracia com suas sacadas que o colocaram no Hall da Fama da cultura pop, são elas:
Regra 1: Na sequência, o número de mortes é sempre maior.
Regra 2: As mortes são mais elaboradas, mais sangue e violência.
Regra 3: Sob nenhuma circunstância, assuma que o assassino está morto.
E essas regras se aplicam as sequencias dos filmes já citados por mim como em outros e essas regras somadas a um elenco com boa química faz esse segundo filme crescer, no casting temos Sarah Michelle Gellar de Veronika Decide Morrer e Buffy (a série não o filme), Laurie Metcalf de Despedida em Las Vegas (além de ser a mãe de Sheldon em Big Bang, A Teoria) e Timothy Olyphant de Era Uma Vez em Hollywood (filme já citado aqui), além do estranho Jerry O'Connell de Joe e as Baratas (além de ser irmão de Sheldon em Big Bang, A Teoria), Jada Pinkett de Até as Últimas Consequências e Matrix (filme já citado aqui)e Liev Schreiber de o Preço de Um Resgate.
Nada na trama do original sugeria uma continuação, mas com o sucesso estrondoso e as ideias do roteirista de fazer mais duas continuações, tivemos Panico 2 elevando ainda mais o conceito. Bem sucedido e elogiado se tornou uma verdadeira febre da cultura pop – Alguém com certeza já teve, quis ter ou viu alguém com uma máscara ou adesivo do Ghostface? Um verdadeiro ícone não apenas do gênero, mas do cinema, sua voz ficou a cargo do dublador Roger L. Jackson de As Meninas Super Poderosas, O Filme.
 
Sendo assim, o ensino médio acabou, meu grupo de amigos se dissolveu, a professora se aposentou e chegamos ao final da história, assassinatos levam uma jovem a confrontar seu passado, uma repórter a rever seus métodos e um ex-policial a mexer em suas feridas e no set de um filme inspirado no massacre em Woodsboro ao qual eles sobreviveram um assassino em série tenta encerrar sua trilogia. Esse conceito e o sucesso das fitas anteriores parecem ser algo muito bom, mas claro, nem tudo são flores, chagamos ao fim da trilogia, e assim como Super-Homem III, Blade Trinity e Olha Quem Está Falando Agora!, por pouco não deu certo. A Múmia: Tumba do Imperador Dragão, Shrek Terceiro e Esqueceram de mim 3 (nem Scarlett Johansson salva) nos mostram: A maioria dos terceiros filmes é mais inferior, agora o quanto isso foi intencional em Pânico 3 não sabemos, porém sabemos que as regras continuam:
Regra 1: O assassino deve ser sobre-humano. Nada vai pará-lo.
Regra 2: Todo mundo, até o personagem principal, pode morrer.
Regra 3: O passado voltará para assombrar e ele pode te destruir.
Regra 4: No terceiro filme de trilogias, tudo pode acontecer.
E se você ainda não acredita em mim, veja a trilogia Busca Implacável, no terceiro filme a trama parte da morte de um personagem principal, a Regra 2 e a reviravolta final da trama me fez lembrar da Regra 4. E seguindo o conceito da metanarrativa as regras se encaixam assim como os atores, alguns membros do elenco estiveram em grandes trilogias como Kevin Smith de Procura-se Amy (já apareceu aqui) , Jason Mewes de O Balconista e Carrie Fisher de Meus Vizinhos São Um Terror, mas também temos o caso de Patrick Dempsey de Namorada de Aluguel (e de Grey’s Anatomy) cujo o único terceiro filme de sua carreira é Pânico. 
Sem Kevin Williamson, o terceiro capítulo sofreu com uma protagonista sem querer voltar para a saga e um roteiro meia boca mais parecendo uma comédia invés da tradicional sátira ao terror amada por todos nós, contudo ainda é bem legal, graças a direção de Was Craven, sem dúvida ele salvou o script de Ehren Kruger de A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell, ele ao assumir a cadeira de roteirista descartou muitas ideias deixadas pelo criador da franquia, o que não foi descartado foi a metalinguagem agora brincando com os bastidores de uma produção Hollywoodiana. Um parêntese metalinguístico e triste é está trilogia ser uma produção da Miramax, companhia fundada pelos irmãos Weinstein, sem spoiler, mas o plot da trama e da conclusão da trilogia envolve abusos de um magnata Hollywood e Harvey Weinstein, magnata de Hollywood foi condenado por abusos sexuaisApesar de na história me parecer uma referência a Roman Polanski e esse Harvey não ter envolvimento criativo na franquia, hoje produzida pela Paramount, este é realmente um fato odioso e deve ser citado.

Pois bem, muitos dão os créditos do sucesso de Pânico para Was Craven, eu acredito que para o bem ou para o mal o sucesso está na simbiose entre ele e Kevin Williamson ao som da música composta por Marco Beltrami de Os Indomáveis, temos uma ótima direção adaptando um roteiro muito inteligente e ambíguo, pois olhando de forma um pouco mais profunda podemos emprestar dois conceitos de Antoine Compagnon, sincronia e diacronia. Compagnon apresenta estes dois conceitos em seu livro Literatura Para Que?, onde o primeiro observa determinada obra como sendo contemporânea e o segundo observa determinada obra, ou pelo menos tenta, observa-la como o público da época o veria. Os personagens de Pânico fazem análises de grandes clássicos e utilizando se da metanarrativa se colocam dentro dos “filmes” aos quais assistiram sendo assim uma analise diacrônica, contudo o roteiro tenta subverter os conceitos apresentados e os clichês do gênero, assim usando uma analise sincrônica atualiza o gênero para uma nova era, mesmo com filmes cheios de altos e baixos,  é uma obra prima do cinema, pois obras-primas não são apenas beleza, elas trazem em si a soma de beleza e também dos defeitos, circunstâncias da época e o contexto social.
 
Ultimamente temos grandes produções de marcas de sucesso pré-estabelecidas, vindas de outras mídias vídeo-games, livros, brinquedos e principalmente o saturado universo de HQ's, e de forma alguma isso é ruim, porém é muito prazeroso ver algo surgir inteiramente para o cinema de uma ideia original e se tornar uma obra tão icônica. 
Pânico é tão grande que não coube numa trilogia expandido seu conceito para outros filmes e séries de televisão, sem se esquecer da principal regra de uma refilmagem:
 Não foda com o original!
E delas eu deixo para falar em outro momento, pois crianças cristãs precisam de entretenimento saudável, não se preocupe volto já!
Ah não, a regra, droga!
*
Se curtiu o filme, acesse: Pânico

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