Apropriação Cultural Baseando-se em Fatos Reais - Jamaica Abaixo de Zero



Apropriação Cultural Baseando-se em Fatos Reais - Jamaica Abaixo de Zero

Estava em casa numa manhã fria, tomando meu achocolatado e vendo noticias no Twitter, quando vi que Alex Atala, chef reconhecido pelo uso de ingredientes de diferentes biomas brasileiros em pratos da alta gastronomia, registrou a marca Baunilha do Cerrado, este alimento é tradicional dos quilombolas pelo que sei e pensando nisso viajei sobre muitas coisas, sobre a tal apropriação cultural que tanto falam, então nesse processo lembrei do filme Jamaica Abaixo de Zero, quatro caras se apropriando de um esporte para conseguir realizar um sonho. Jamaica Abaixo de Zero é uma comédia de esporte que leva o selo Disney de qualidade, foi dirigido por Jon Turteltaub de Fenômeno e conta com Leon Robinson de Little Richard, Doug E. Doug de Class Act - Alunos Muito Loucos, Rawle D. Lewis de K-Pax, Malik Yoba de Paradox e John Candy de Antes Só do Que Mal Acompanhado, Candy foi um dos atores mais carismáticos do cinema e faleceu um ano após a estréia deste filme, sendo este a maior bilheteria de sua carreira.

Mesmo sendo exibido menos que outros clássicos da Sessão da Tarde Jamaica Abaixo de Zero foi um sucesso, um dos VHS mais alugados no auge das locadoras de vídeos, isso na opinião do meu Tio Aré, então a informação carece de fontes. No enredo, um jovem tem o sonho de seguir os passos do pai e ganhar uma medalha olímpica, mesmo que ele tenha a difícil missão de formar do zero uma equipe de um esporte totalmente desconhecido e inapropriado para às condições climáticas de seu país. O BOBSLED. E justamente por isso brinco dizendo que o filme é sobre apropriação cultural, mas não é, para elucidar, veja no já citado caso Kalunga, pelo o que eu entendi; No Território do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, maior quilombo do Brasil, há especiarias e alimentos únicos, cultivados há gerações pelas comunidades quilombolas. Que fortalecem a agricultura familiar na região. Então Atala criou o projeto Baunilha do Cerrado que foi conduzido por sua organização, o Instituto Atá, no território quilombola e devido a isso parte desses produtos está agora à venda para um público amplo “graças” ao lançamento da linha Ecossocial Kalunga em São Paulo. Apropriação cultural é um assunto muito delicado e pesado, bem diferente do tom deste filme. No ano de mil novecentos e noventa e três, Jamaica Abaixo de Zero apresentou ao mundo uma maneira divertida, e pouco ortodoxa de contar uma história real, um esporte muito estranho, sim, a história é real e aconteceu em mil novecentos e oitenta e oito na Olimpíada de Calgary, no Canadá, mas os realizadores tomaram várias “licenças poéticas” para narrar a aventura, na real o filme todo é uma licença poética, e geralmente filmes baseados em acontecimentos reais são dramas, biografias cheias de fatos históricos e eventos trágicos; Por isso, acho genial e espetacular como essa história real mesmo usando as verdadeiras imagens de um momento trágico resulta numa comédia, um exemplodentro das tantas licenças poéticas são os nomes, geralmente em “filmes baseados em fatos reais”, mesmo que não muito fiéis a realidade que inspiraram a trama é de praxe que os nomes se matem, mas não aqui, os personagens nesta película tem nomes fictícios como Derice, Júnior e Yul, esse último referenciando um grande ator. (Já citado aqui: link).

O filme tem como trilha sonora o single “I Can See Clearly Now” de Jimmy Cliff que dispensa comentários e o roteiro do filme faz jus a ele, por exemplo assim como os protagonistas aprendem sobre a corrida de trenó, o público também vai conhecendo aos poucos como funciona o esporte, o trenó, a pista de gelo, os equipamentos de segurança, etc... E não só nisso o roteiro é inteligente, mas na condução da narrativa também, pois no Bobsledge o trabalho em equipe é fundamental para o sucesso. No trenó há quatro pessoas, o primeiro atleta é o piloto, o último é o responsável pelo freio, e os dois do meio são fundamentais na arrancada da largada. E não só na hora da corrida, mas em toda narrativa do roteiro cada um dos quatro tem a mesma função que na equipe. Derice é quem pilota e direciona a trama do filme, Junior e Yul são os que dão a arrancada na largada e na narrativa, sem eles a história não andaria e Sanka são os freios do trenó e no argumento, quando Derice está louco querendo imitar os campeões da modalidade, Sanka coloca seus pés no chão.

Cartaz por Chuck
Comecei esse texto falando sobre apropriação cultural, e o filme sim é sobre apropriação, mas não da forma sórdida que entendemos o conceito de apropriação cultural, esse tema não pode ser banalizado, pois bem, resumindo o caso citado aqui, Alex Atala descobriu que o quilombo goiano possuía a tal baunilha e que pequenos agricultores kalungas a vendiam por preços irrisórios. A baunilha é muito preciosa no meio gastronômico, e pode não ser mais cara que o ouro, mas vale mais que a prata no mercado internacional. Os produtos antes pertencentes a cultura de um povo, agora são marcas registradas, propriedade exclusiva do Instituto Atá e o quilombo não ganha nada. Para saber mais, dê um Google nisso, use palavras chaves na busca {ALEX QUILOMBO BAUNILHA}.
Esse é o mais claro exemplo de apropriação cultural, é a empresa cujo o dono diz não gostar de gays, mas que vende grife para a comunidade LGBTQ+, são pessoas que abrem uma “Temakeria” sem nunca ter feito aulas de culinária com um professor japonês ou ter ido ao Japão e também é quando a novela apresenta a cultura negra como algo demonizado, dizer que apropriação cultural é quando um cara usa dreads sem ser rastafári, ou uma pessoa branca usa turbante e uns caras andam de trenó num pais tropical é limitar a discussão, pois para que a pessoa use esses exemplos ela tem que no mínimo ter noção de que isso tem um peso histórico e cultural, não é apenas estética ou status, então o que a pessoa vai ou não usar, aqui não é a questão, cada um usa o que quer e também se alimenta do que quer e faz o que quer nesse caralho, o ponto é: O que às culturas que estão sendo apropriadas ganham com essa ação e o que de fato essa cultura que se apropria da outra estão fazendo na melhoria da luta pela representatividade destas pessoas.
E nesse ponto olhemos para a produção de Jamaica Abaixo de Zero.
O filme é um produção americana do conglomerado Disney onde se apropriaram de uma história de outra cultura para ganhar uma grana, nem no mínimo foi uma produção Jamaica/EUA, mas há males que vem para o bem? Pois apesar da corporação lucrar com o ocorrido e por mais que o filme não seja fiel aos fatos que o inspirou, acredito que Devon Harris, Dudley Stokes, Michael White e Caswell Allen sentem orgulho de ter mostrado a Jamaica para o mundo de uma forma irreverente, e mostrado que a cultura deles vai além do senso comum que nós conhecemos fora da ilha, esses atletas não só corresponderam às expectativas na pista de forma positiva, mas também culturalmente, pois isso somado ao sucesso do filme e às participações da Jamaica nos jogos que se seguiram, só fez aumentar o valor do legado deixado por eles. Na Jamaica em Rainforest, que fica em Ocho Rios, há a Mystic Mountain, uma montanha russa cujo carrinho simula um trenó e um pequeno museu que conta toda a saga do time jamaicano de Bobsled, entretanto apenas Chris Stokes permaneceu ligado ao esporte, hoje ele dirige a Federação Jamaicana de Bobsledge e competiu mais três vezes nos Jogos de Inverno e em dois mil e nove escreveu o livro Cool Runnings and Beyond – The Story of the Jamaica Bobsleigh contando toda a sua incrível história, nascida a partir de uma ideia absurda.

Jamaica Abaixo de Zero é muito cativante e inspirador, onde até mesmo às cores que representam a bandeira da Jamaica podem ser representadas bem no que é o cerne deste filme, o preto é a força e a criatividade do povo jamaicano para ultrapassar às adversidades, o Amarelo representa o sol dourado que brilha e os recursos naturais da ilha que mantém o povo sempre em frente e o Verde da natureza da ilha é a esperança, tudo o que filme nos apresenta e portanto Jamaica Abaixo de Zero esta acima de fórmulas prontas e temas de filmes de esportes, com performances precisas, humor leve e tom motivador, é sem duvida uma das melhores produções Disney, uma pena hoje estar quase esquecida.
 A equipe jamaicana de 1988 no início dos treinos.
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