O Crepúsculo dos Sonhos - Crepúsculo dos Deuses (TESTE)





QUEM NARRA A HISTÓRIA É O PROTAGONISTA MORTO!

Não, não é um spoiler, mas ao ver isso me perguntei, será que o que nos mantêm vivos em nosso dia-a-dia são os nossos sonhos? O que mantêm um escritor vivo é escrever? O que mantêm um homem apaixonado vivo é amar? E o que matem um ídolo vivo é a adoração a ele?

            Essas questões vieram assistindo ao filme Crepúsculo dos Deuses, título em português do filme Sunset Boulevard, escrito e dirigido por Billy Wilder, e, que, em uma lista elaborada pelo American Film Institute apareceu na décima segunda posição como melhor filme estadunidense de todos os tempos.

No elenco temos grandes astros do começo do cinema industrial como William Holden e Gloria Swanson entre outras personalidades interpretando a si mesmos como o mordomo Max. O filme traz um drama envolto de um clima noir para contar a história de um decadente roteirista, uma atriz da era de ouro do cinema mudo e uma aspirante a roteirista e em como os sonhos podem nos brutalizar. A trama é bem simples, como a maioria dos roteiros era nos anos 50, contudo o filme inicia com uma genial cena em um contra-plongée de um homem morto na piscina, o que é  ironicamente genial já que o nome da técnica, plongée, em francês é mergulho, e a ironia também segue na narração em off:

“O pobre sujeito” prossegue o narrador. “Sempre quis uma piscina. No final, acabou conseguindo uma”.

Logo sabemos que se trata do nosso protagonista, o ator William Holden como o roteirista Joe Gillis, e a partir dali o seguimos história adentro até o momento em que ele encontra Norma Desmond que é interpretada por Gloria Swanson, uma decadente atriz da era de ouro do cinema mudo que atrai Gillis para seu mundo fantasioso no qual ela sonha um triunfante retorno às telas.

O filme traz uma fotografia absurdamente cativante com longas panromânicas para mostrar a majestade e closes para mostrar a loucura íntima de cada personagem. Crepúsculo dos Deuses foi indicado para onze Óscares, tendo recebido três, um por seu roteiro original, retratando uma estrela do cinema mudo que não soube se adaptar ao cinema moderno, melhor trilha sonora, a música grandiosa nos leva enquanto galgamos entender o que nos espera trama adentro, e, recebeu também o Oscar que não existe mais, melhor direção de arte em preto e  branco, caso você não saiba e muito mais difícil fotografar em preto e branco que em technicolor.

O título original do filme é o nome da avenida que corta as cidades de Los Angeles e Beverly Hills, na Califórnia, morada dos astros, o filme nos dá a sensação agridoce de como o sonho doce pode se tornar uma realidade amarga: um roteirista fodido na vida e fugindo da financiadora, se torna um gigolô sem pensar duas vezes. Os dois protagonistas claramente buscam viver um sonho e quando tragados pela realidade são jogados ladeira a baixo.

O filme é amargo e a meu ver, fora de sua época, hoje em tempos de celebridades descartáveis e sua ambição pelo sucesso ele se torna extremamente atual. E mais, nos mostra como a busca pelo o que sonhou pode não ser alcançada.

Irônico e cruel em seus 67 anos Crepúsculo dos Deuses é uma obra de arte, mas na fala de Norma Desmond “As estrelas não tem idade”...

Mas antes de terminar tem algo que achei interessante, a mansão que aparece no filme foi construída em 1924, e não fica no Sunset Boulevard. Na época das filmagens, pertencia à ex-mulher de um magnata do petróleo. A mansão foi demolida em 1957; em seu lugar ficou um posto de gasolina,  falo isso, pois o filme, assim como a vida,  não nos dá um personagem bom ou mal, ignorante ou inteligente, ele dá personagens humanos que buscam algo e tentam alcançar culminando em um final trágico e poético, então SIM! O que nos mantêm vivos em nosso dia-a-dia são os nossos sonhos!
O que mantêm um escritor vivo é escrever.
O que mantêm um homem apaixonado vivo é amar.
E o que mantêm um ídolo vivo é a adoração a ele.
Crepúsculo dos Deuses nos diz para sonhar, pois se por medo deixar os sonhos de lado, ao querermos retomá-lo pode ser tarde demais, pois, todo sonho em sua majestade tem seu crepúsculo.

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